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Nelson Brederode e o som que surpreende do início ao fim.

Atualizado: 29 de jul.

A produtora Cultura Iminente reativa seu Blog e teve a felicidade de entrevistar um dos artistas mais proeminentes do atual cenário musical Pernambucano. Nelson Brederode, natural de Igarassu-PE, já tem mais de 20 anos dedicados a música e esteve presente no palco de grandes nomes como Maestro Spok, Maria Rita, Luiz Melodia, Antônio Nobrega, Claudionor Germano entre outros. Subindo no palco pela primeira vez para apresentar seu trabalho solo em março de 2021 na segunda edição do Espiral das Artes virtual, agora Nelson Brederode faz o seu primeiro show autoral chamado A Charada Sincopada, no Palco Instrumental do FIG 2022.


A Cultura Iminente conversou com Nelson Brederode para conhecer uma pouco mais sobre esse artista de múltiplos talentos e seu trabalho inusitado, onde ele utiliza seu principal instrumento, o cavaquinho, com pedais de modulação, possibilitando inúmeros efeitos e criando uma sonoridade única.


Acompanhe a seguir essa conversa especial que tivemos com Nelson Brederode.

Foto: Raphael Malta


Entrevista com Nelson Brederode


Cultura Iminente: Nelson, em primeiro lugar nos conta quando e como foi o momento em sua vida que você decidiu se dedicar a música?


Nelson Brederode: As lembranças que eu tenho assim de infância, ao menos na quinta série, que eu me lembro, que eu estudei lá no Eurico Pfisterer, na escola da prefeitura, acho, ou é do governo, não sei... lá de Igarassu... não lembro mais se ela é estadual ou municipal... eu me lembro que lá eu batucava no fundo das cadeiras, que tinha uns graves, e na porta, e era uma batida meio de samba, uma clave meio de samba! E também minhas irmãs ouviam música, fui crescendo neste ambiente, a vizinhança... e um belo dia estava uns vizinhos ao lado de minha casa fazendo uma festa, então pedi a minha mãe para ir lá dar uma olhada e lá estavam várias pessoas... e hoje em dia não é assim, você com acesso a música é diferente, mas antes tinha a galera que era do reggae outra do rock, outra do pagode, do brega... as vezes uns gostavam de duas coisas também... Mas é engraçado, estava assim a galera num canto, os estilos de roupas... e aí quando de repente tocou ‘Trem das Onze’, todas as pessoas cantaram aquela música, convergiram ali para aquele chamado, para aquela música que até então eu não conhecia e foi maravilhoso quando eu vi o poder da música, e no final, naquela música, todo mundo cantando bem emocionado, empolgado, e no final, pra completar veio o “quas, quas, quas”, que era uma coisa diferente então, porque tudo era “laiá, laiá”, “aê”, “ô”, “lê, lê, lê”... então o “quas, quas, quas, quascarigundum”, aquilo ali, puxa, me tocou muito.


Cultura Iminente: Por que o cavaquinho?


Nelson Brederode: Eu comecei na percussão e logo fui pro samba, pro pagode. Comecei a pesquisar muito samba, os LPs, cassetes. Eu ouvi muito Rap Brasil, funk, algumas tendências, sucessos da época, Edson Gomes, Chico Science (incrível quando surgiu). Então como peguei emprestados instrumentos de percussão dessas pessoas que estavam na festa, peguei um atabaque e um ganzá e comecei a batucar fim de semana com uns amigos, então os instrumentos dialogavam mais com o samba e pagode. E eu fui atrás desses vinis, perguntando a minha mãe, outras pessoas que eram cantores e cantoras de samba e pagode, que poderia gostar, enfim, pesquisar, pegando vinil emprestado dos amigos, dos pais dos amigos... e desde então quando ouvi o samba, aquelas gravações antigas, o cavaquinho estava bem destacado. Como eram a percussão, o cavaquinho e violão, o cavaquinho tinha muito aquela batida já marcada, principalmente Clara Nunes, algumas coisas assim como Carlinhos do cavaco, Mané do cavaco, entre outros grandes cavaquinhistas... e aquilo ficou na minha cabeça, mas eu comecei tocando percussão. Um belo dia eu pedi a minha mãe pra comprar um cavaquinho pra mim, porque eu via que quem “comandava” a roda moral era o cara do cavaquinho, aquele que puxava as músicas que ele sabia tocar... então comprei o cavaquinho. E um amigo meu que até não sobreviveu a pandemia da covid, me deu os primeiros toques e eu não consegui tocar, passar os acordes. Então eu “desisti”, “abandonei” o cavaquinho e deixei com um amigo que tocava violão, pra ele tocar cavaquinho no grupo de pagode da gente, o AMISAMBA, Chocolate. Aí Chocolate aprendeu o cavaquinho e ficou sendo o cavaquinhista e meu cavaquinho ficou com ele. Um belo dia o grupo acabou, eu estava de férias da escola e peguei o cavaquinho e tentei fazer aquela passagem que eu não estava conseguindo e então ela saiu, aí e eu me empolguei, fui atrás, aprendi a primeira música e lascou.


Cultura Iminente: Você sempre teve a convicção de querer fazer um trabalho autoral quando se tornou músico? E o que te motivou a desenvolver este trabalho solo?


Nelson Brederode: Essa pergunta é difícil. Como acho que eu sempre fui sonhador, antes de ser músico queria ser jogador de futebol, sonhava fazendo gols, driblando imaginário, ficava na imaginação driblando no quintal de casa, gols nos estádios lotados, salvando o clube. Imaginava que estava na arquibancada e por algum acaso precisava de alguém e eu ia e entrava em campo, no time, e fazia o gol da vitória...


Então comecei a tocar e fiquei encantado pelo deleite de tocar, trabalhar, essa luta de sempre, ganhar um trocadinho, pagar as contas e trabalhar com isso, que é o que eu gostava, ir tocando com grandes nomes assim... tive a sorte de estudar com Bozó, que me indicou pra tocar com todas essas pessoas... E embora sempre compusesse, 'O Tesouro do Gato' mesmo, acho que é minha primeira composição, acho que em 2003/2004, aí eu ficava tocando, fui levando a vida e realmente essa coisa de sonhar com um trabalho autoral por um tempo ficou adormecida, mas depois eu fui vendo a necessidade de gravar minhas composições, fazer meu trabalho, ter o meu nome, fazer os meus shows, sair um pouco de estar acompanhando grandes músicos, enfim.


É bem recente a questão do meu trabalho autoral, de amadurecer ele, demorou um tempo! Porque eu tinha as músicas, mas não tinha cabeça pra isso. Hoje eu entendo como foi bom ter demorado pra gravar 'A Charada Sincopada', porque pude trazer a maioria das coisas por onde passei, o que meu cavaquinho bebeu, comeu, por onde eu passei, vivi. Porque se eu tivesse gravado antes, teria sido um disco mais verde, não teria toda essa riqueza, essa pluralidade que A Charada Sincopada traz.


Cultura Iminente: Esse trabalho que você faz com o cavaquinho, utilizando pedais de efeitos e até arco de violino é algo no mínimo inusitado! Quais suas inspirações? Como surgiu essa ideia?


Nelson Brederode: Eu sempre fui um cara meio viajado, então, na faculdade eu tive oportunidade de pegar emprestado um pedal de efeito, se não me engano foi um PHASER, azulzinho, foi meu primeiro pedal, mas eu não sabia nem usar, levava pro Chorinho... mas sabe aquela coisa da vontade? Um pedal é um instrumento! Aí eu comecei a aplicar mesmo e desenvolver, aprender com os amigos dicas e pesquisar, foi quando a banda 'Rua do Absurdo' se formou. Ela veio de um grupo de samba, onde eu, Caio e outros meninos, nós fazíamos o grupo, o grupo se desfez, e entrou Hugo e Yuri e surgiu a Rua do Absurdo, depois Bruno Giorgi. Mas na Rua do Absurdo foi quando eu comecei a pesquisar os sons dos pedais, comprei uma pedaleira, depois outra, foi quando comecei a pesquisar o som dos pedais e algum dos meninos falou sobre o arco de violino, que alguém usava. Hugo começou a usar o arco de violino nos pratos da bateria, então eu experimentei e junto a alguns efeitos fica muito legal.


Eu fui descobrindo tocar o cavaquinho pra ser um cavaquinho com efeito e não fazer de conta que é uma guitarra ou alguma outra coisa, ou um violino, não! Aquilo é um cavaquinho mesmo, com efeito, então vai soar daquele jeito, não vai funcionar tão bem quanto a captação de uma guitarra, quanto o violino, porque as cordas não são arqueadas, são retas, enfim, mas o efeito, o timbre... e a graça é essa, não procuro fazer com que o cavaquinho vire outro instrumento não. Gosto que o cavaquinho seja isso, seja um cavaquinho com tal efeito, ou outro efeito as vezes soa bem, as vezes não tanto, mas é isso. Foi isso que fui descobrindo quanto a usar os efeitos e o arco de violino. Foi muito a minha experiência na banda na qual faço parte, que sou o fundador a Rua do Absurdo.


Cultura Iminente: Quem é Nelson Brederode na fila do pão?


Nelson Brederode: Essa é uma pergunta, uma das mais difíceis, embora eu estou procurando ser cada vez mais eu, na vida, no trabalho... eu sou um andarilho em vários aspectos. Quem é Nelson Brederode? Que pergunta difícil! Mas é isso, eu sou uma pessoa que viaja bastante, a cabeça cheia de sonhos. Sou louco (acho), romântico, teimoso, porque pra estar na arte a gente precisa ser... (...) Musicalmente, comecei muito no samba e hoje em dia me considero um músico, um artista, antes eu até dizia que eu era sambista, “Nelson Brederode é sambista”, por ter começado no mundo do samba. Mas eu sou um artista! Eu acredito que o que a gente planta a gente colhe! Acredito muito nas energias e a pessoa estar se permitindo cada vez mais e querendo ser o que é.


Cultura Iminente: Nelson, hoje, dia 28 de julho de 2022, você apresentará pela primeira vez seu show A Charada Sincopada no Palco Instrumental do FIG 2022, fala um pouquinho sobre essa expectativa e o que o público pode esperar de Nelson Brederode no palco?


Nelson Brederode: A expectativa é grande. A gravação da Charada Sincopada fez me descobrir e descobrir meu som. As músicas saíram das partituras, então veio todo o processo de recorte e de colagem que no estúdio pode ser feito, bem diferente das músicas como eram tocadas de forma mais acústica com instrumentos de choro. Então pude realmente descobrir quem é Nelson Brederode na música, o som, depois da Charada Sincopada, onde pude reunir vários elementos que constitui minha vida, e isso foi a descoberta do som.


A expectativa é grande, é o primeiro show autoral, é um novo momento na vida, quando você está à frente e é responsável por várias coisas. E vai ser um momento de descobrir Nelson Brederode no palco, o Nelson Brederode e o seu show, seu som, sua atitude, suas palavras, seus gestos, performance, no palco. Então essa é a grande expectativa, além de celebrar, de comemorar, claro, essa oportunidade, esse nascimento, mas um nascimento sem necessariamente morrer em outros lugares.

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